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Diretor geral e fundador da agência Market 21 no Brasil. Mestre em Administração pela FGV-SP, além de graduado em Engenharia Eletrônica, com pós-graduação em Administração de Marketing e em Gestão Estratégica de RH. Atuou na Cisco, Avaya, AES Eletronet, Nortel, Bay Networks e Wellfleet, além de empresas do grupo Algar. Também foi professor na Unip.

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Flip 2020 - Elizabeth Bishop, pandemia e literatura sem "festa" Postado em: 21/08/2020

Por causa da covid-19 e à pandemia global, foram tantos os eventos que precisaram ser cancelados ou adiados desde que o mundo foi atingido por essa nova doença que a toda hora lemos ou vemos algo a respeito. Infelizmente, esse fato também afetou ao nosso principal evento literário no Brasil - a Flip 2020.

Não fosse a pandemia, nesse momento talvez eu estivesse aqui escrevendo sobre como teria sido a 18ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), inicialmente marcada para começar no último dia 29 julho. Como tantas outras festividades, a Flip foi adiada e agora tem sua realização prevista para novembro, em um modelo ainda indefinido, mas provavelmente híbrido entre o virtual e o presencial "reduzido", seguindo as recomendações sanitárias do momento.

Alguns nomes de participantes já haviam sido anunciados quando tudo parou. É possível que autores nacionais e internacionais que pretendiam vir em julho consigam mudar suas agendas. Para alguns, entretanto, o adiamento pode significar ausência. Assim, entender qual o "tom" da festa desse ano só será possível quando a nova data for confirmada e, aos poucos, novos anúncios de presença forem divulgados.

Em meio a toda essa desagradável - mas imprescindível - mudança, um ponto não se alterou: a autora homenageada de 2020, a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979). Quando o nome dela foi anunciado, o público e até alguns autores se manifestaram contrários à escolha da Flip. Houve até campanha na internet pedindo a troca do homenageado.

Para entender um pouco esse debate primeiro é preciso lembrar que desde 2003, quando estreou em Paraty, a Flip presta homenagem a um autor brasileiro. Nomes como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade já foram laureados em outras edições. Ano passado o homenageado foi Euclides da Cunha. Em 2005, foi a ucraniana naturalizada brasileira Clarice Lispector.

Mas a discussão em relação ao nome de Bishop vai muito além do fato dela ser estrangeira. Suas opiniões políticas e algumas das críticas que ela fez ao Brasil é que pesam contra ela. A poeta veio para o Brasil em 1951 para uma breve estadia, como parte de uma viagem pela América do Sul, mas apaixonou-se pela arquiteta Lota de Macedo Soares e ficou no Rio de Janeiro, onde viveu por muitos anos. A história delas foi contada no filme Flores Raras, de 2013.

Quando chegou ao Brasil, Bishop já era reconhecida como uma das grandes poetas do século 20, ainda que só houvesse publicado um livro até então. Boa parte da sua obra foi produzida por aqui e foi influenciada pela cultura brasileira. "Reconhecida como uma das maiores poetas do século 20, Bishop - que viveu por quase 20 anos no nosso país - foi uma das grandes responsáveis pela divulgação da literatura brasileira em terras estrangeiras. Sua relevância para o Brasil e para a literatura foram, portanto, as razões essenciais para sua escolha", explica a organização do evento em seu site oficial.

Essa relação com o país a levou a escrever, especialmente em cartas, sobre questões ligadas aos costumes e à política brasileira. E é essa escrita não literária que gera tanta controvérsia em relação à autora. Em especial as opiniões sobre o golpe de 1964. "Nunca na minha vida, antes de vir para cá, sonhei por um minuto que algum dia eu gostaria de ver um exército tomar o poder", escreveu em uma carta pouco depois da tomada de poder pelos militares. Ainda que em outros momentos ela tenha mostrado certa ambiguidade em relação à ditadura, é essa posição favorável ao golpe que prevaleceu.

Visão elitista e críticas ao Brasil e aos brasileiros fizeram parte da história dela durante seu período de residência no país. Ela chegou a dizer que aqui era seu lar, mas ao mesmo tempo escrevia a amigos para criticar aspectos culturais, como a informalidade dos brasileiros, por exemplo. Esse histórico faz dela uma escolha ruim para ser homenageada na maior festa literária brasileira, dizem seus críticos. Especialmente em um momento de lutas de minorias e polarização política.

Os organizadores da festa acreditam que a polarização torna a discussão do controverso ainda mais necessária. Eles chegaram a anunciar que fariam uma reavaliação da homenagem, porém optaram por manter o nome de Bishop. 

Com mais alguns meses até a nova data da Flip, podemos aproveitar o período de isolamento social para ler poesia - algo não muito natural para a maioria - e para entender a obra de Bishop, despidos de julgamentos. Uma opção é a versão original, em inglês, de seu primeiro livro, "Poems: North & South - A Cold Spring", com o qual ela venceu o prêmio Pulitzer em 1956. Eu indico a antologia organizada e traduzida por Paulo Henriques Britto "Poemas escolhidos", publicado pela Companhia das Letras.

Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop

Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto

2012 - 416 Páginas

Companhia das Letras

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