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Consultor senior, com experiência em debater e avaliar impactos das (r)evoluções tecnológicas nos negócios. Atuou em empresas como IBM e PwC. É palestrante e autor de livros, que abordam temas como cloud computing, big data e inovação.

ctaurion@litterisconsulting.com.br

Convivendo com tecnologias emergentes! Postado em: 05/10/2016

Lidar com tecnologias emergentes é um desafio. É difícil descobrir se determinado fenômeno tecnológico que está surgindo é exagero, tendência ou tsunami. As decisões de embarcar em uma tecnologia inovadora são arriscadas e tem, inevitavelmente, uma alta margem de incertezas. Por outro lado, o cenário de negócios está cada vez mais complexo e ameaçador, e para manterem-se vivas e relevantes, as empresas tem que continuamente se inovar. As tecnologias emergentes representam o futuro de muitos setores de negócios, pois tem potencial de criar e reestruturar indústrias em ritmo cada vez mais acelerado. Tornam obsoletas práticas tradicionais e provocam o surgimento de novas e melhores práticas, competências centrais e estratégias competitivas. É um cenário que as empresas têm que enfrentar. Simplesmente não tem escolha, a não ser se transformar em participantes ativas nas tecnologias emergentes que podem redefinir seu próprio futuro. Ou correr o risco de perderem relevância e eventualmente desaparecerem. Leiam e se assustem com o relatório "What is the life expectancy of your company?" do World Economic Forum. Está textualmente nele: "almost 50% of the Fortune 500 from 1999 had disappeared from the list just ten years later."!

Adotar tecnologias que ainda não se consolidaram é um desafio para qualquer empresa e seus executivos. Algumas questões básicas que elas precisam responder para gerir sua adoção podem ser resumidas em:

1)      Como as empresas devem avaliar, decidir e se comprometer com tecnologias emergentes, em face da extrema incerteza de sua viabilidade?

2)      Como decidir se a adoção será agressiva ou se adotam abordagem de observação e espera? Quais os riscos e recompensas dessas estratégias?

3)      Como as empresas devem lidar com as tecnologias emergentes em seu mercado, pois muitas vezes essas criarão novos modelos de negócio que baterão de frente com as atuais práticas e modelos adotados?

4)      Quais as estruturas organizacionais que serão necessárias para desenvolver, usar e comercializar tecnologias emergentes?

Nesse contexto, torna-se necessário monitorar continuamente as inovações que poderão mudar o futuro das organizações. Várias fontes de informação confiáveis mostram que o cenário de negócio está cada vez mais turbulento e instável.  Podemos até criar um acrônimo, CIVA, para exemplificar o cenário de negócio atual e futuro: Complexidade, Incerteza, Volatilidade e Ambiguidade. Esses quatro fatores serão pano de fundo do cenário em que as empresas passarão a operar no 21. Um documento que mostra claramente que estamos próximo do "tipping point" de adoção de várias tecnologias que mudarão de forma dramática o cenário de negócios nos próximos 10 a 15 anos é "Deep Shift Technology Tipping Points and Societal Impact", publicado pelo World Economic Forum. Aqui faço dois lembretes: "tipping point" ou ponto de inflexão é aquele momento onde a tecnologia alcança massa crítica suficiente para se disseminar pela sociedade e causar impactos. E esta disseminação é exponencial. Infelizmente, o nosso pensar de forma linear, quando a evolução é exponencial, nos leva a terrível armadilha de subestimar o impacto das transformações. Um exemplo de como a mudança exponencial é subestimada foi o Human Genome Project. Foi lançado em 1990, com estimativa de ser concluído em 15 anos a um custo de US$ 6 bilhões. Em 1997, metade do prazo, apenas 1% do genoma humano tinha sido sequenciado. Pelo planejamento linear que nós adotamos, supondo 1% em 7 anos, levaríamos 700 anos para concluir o sequenciamento. Parece lógico não? A pressão para encerrar o projeto foi imensa, mas quando perguntaram ao futurista Ray Kurzweil, ele disse "1% significa metade do caminho. Vão em frente! ". Ele pensou exponencialmente. 1% dobrando a cada ano significa chegar aos 100% em 7 anos. O projeto foi concluído em 2001, quatro anos antes do planejado e custando muito menos dinheiro que o estimado. O pensamento linear, tradicional, errou o alvo por 696 anos!

Recentemente o Gartner liberou seu "Hype Cycle for Emergent Technologies" com sua visão das principais tendências tecnológicas para os próximos anos. Esta visão gráfica proposta pelo Gartner é interessante pois ela combina duas curvas que se complementam. A primeira, em formato de sino, descreve o fenômeno da esperanças e expectativas, e a frequente desilusão que acontece com muitas tecnologias. É o lado emotivo, que enfatiza o entusiasmo e exacerba a frustração. A segunda curva, mais racional, é a que descreve a adoção de tecnologias e tem um formato de um "S" deitado. Aí que as tecnologias realmente se consolidam e se disseminam pela sociedade. De forma similar vemos este fenômeno ocorrendo na mídia. Quando a tecnologia está na fase do entusiasmo ou mesmo frustração, aparece em reportagens como casos de sucesso ou fracasso. Quando ela passa a ser adotada, se torna mainstream, simplesmente some da mídia.

O Gartner alerta que ""To thrive in the digital economy, enterprise architects must continue to work with their CIOs and business leaders to proactively discover emerging technologies that will enable transformational business models for competitive advantage, maximize value through reduction of operating costs, and overcome legal and regulatory hurdles". O interessante do relatório é que agrupou-se as diversas tecnologias em três macro tendências, que sintetizam o caminho da evolução tecnológica para os próximos anos.

Essas três tendências são:

1)      Experiências imersivas (Gartner chamou de "transparently immersive experiences").  É o conjunto de tecnologias que estão se tornando mais "human-centric" e com isso tornando cada vez mais invisível, fluída e contextual as relações da tecnologia com as pessoas, objetos e empresas. Entre elas estão a realidade virtual e a realidade aumentada. O caso do Pokémon mostrou na prática que realidade aumentada já é realidade. Vale a pena ler "Pokémon Go Brings Augmented Reality to a Mass Audience". Também começam a aparecer evoluções de tecnologias que já tem 30 anos, mas ainda pouco usadas aqui no Brasil como as impressoras 3D. Já vemos as impressoras 4D despontando. Vale a pena dar uma olhada em "Explainer: what is 4D printing?".

2)      Máquinas inteligentes (The perceptual smart machine age). Máquinas inteligentes, ocultas em assistentes pessoais como Google Now, veículos autônomos e robôs, suportados por algoritmos sofisticados, machine learning e técnicas de linguagem natural serão lugar comum. Algoritmos inteligentes já estão inseridas nas nossas atividades diárias e nem percebemos disso. Quando vemos um filme no Netflix ou encomendamos um livro na Amazon, por trás dessa escolha tem a influência de algoritmos de recomendação. A sugestão de caminho proposto pelo Waze ou a precificação de uma corrida pelo Uber também são baseados em algoritmos. Aprovação ou negação de créditos são baseados em algoritmos. Preços dinâmicos para passagens aéreas são estipulados por algoritmos. A onipresente busca que fazemos no motor de busca do Google é um sistema de IA. Mais da metade das ações em bolsa transacionadas nos EUA já são comandadas por algoritmos. Pesquisadores já apontam que uma máquina HLMI (Human-level machine intelligence), que pode ser definida como um computador que poderá efetuar a maioria das profissões humanas ao menos tão bem quanto um ser humano, tem 50% de chance de ser alcançada em torno de 2050. E que de lá para uma máquina superinteligente o passo seria de poucas décadas. A definição desta máquina superinteligente seria algo como "um intelecto que excederá largamente o desempenho cognitivo de humanos em virtualmente todos domínios de conhecimento".

3)      Revolução das plataformas (Platform revolution). O deslocamento da infraestrutura tecnológica para ecossistemas (que começou primitivamente com cloud computing) e irá se aprofundar com tecnologias como blockchain e SoftwareDefined Anything (SDx) vai criar as fundações para criação de novos modelos de negócio, criando uma ponte invisível e intuitiva entre nós e as tecnologias.

É um fato, não uma opinião. As mudanças estão acontecendo em ritmo acelerado, e exponencialmente! Seu poder de transformação da sociedade e empresas não pode ser ignorado. Os executivos das empresas, sejam CEOs ou CIOs devem estar antenados com estas mudanças, que já estão no cenário estratégico de curto a médio prazo, e que mudarão de forma significativa as estruturas sociais, empresariais e, consequentemente, modelos de negócio. Os bilhetes para o trem estão se esgotando e se não corrermos, vamos perdê-lo. Como disse o CEO da Disney, Bob Iger "The riskiest thing we can do is just maintain the status quo.".

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