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Consultor senior, com experiência em debater e avaliar impactos das (r)evoluções tecnológicas nos negócios. Atuou em empresas como IBM e PwC. É palestrante e autor de livros, que abordam temas como cloud computing, big data e inovação.

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Você conhece blockchain? Ele pode transformar o setor financeiro! Postado em: 20/07/2016

Um tema que chamou atenção no último CIAB foi o blockchain. Muita gente falando disso e até altos executivos de bancos abordando o assunto em suas apresentações. Mas, a maioria das pessoas com quem conversei ainda associam blockchain a moedas virtuais, como Bitcoin, e portanto, ligado diretamente aos bancos. Mas o potencial de uso de blockchain vai muito além das moedas virtuais ou cryptocurrencies. Em teoria, poderá transformar os bancos, negócios, governos e nossa sociedade.

Mas, o que é blockchain? Hoje usamos um intermediário garantidor, no qual confiamos, para fazermos uma transação. É onde entram os bancos. Mas, se não precisássemos deste intermediário? Se pudéssemos fazer as transações diretamente entre as pessoas ou empresas, sem passar por um elo no meio? Usando criptografia, blockchain é uma tecnologia que mantém um banco de dados distribuído ou "digital ledger" ou livro razão, para manter um registro de transações, que todos conectados na rede podem ver. Esta rede é na, sua essência, uma cadeia de computadores. Quando uma nova transação ou uma correção de transação existente é recebida, grande parte dos nós da rede de blockchain deve executar alguns algoritmos e, essencialmente, avaliar e verificar o histórico do bloco do blockchain individual que é proposto e, assim, chegar ao consenso de que o histórico e a assinatura são válidos. Apenas quando considerado válido é que a nova transação será aceita no registro e um novo bloco será adicionado à cadeia de transações. Caso a maior parte dos nós não reconheça a adição ou modificação da entrada de registro, tal entrada é negada e não é adicionada à cadeia. Esse modelo de consenso distribuído é o que permite que o blockchain funcione como um registro distribuído sem a necessidade de que uma autoridade central para certificar quais transações são válidas e quais não são.

Blockchain pode ser usada para qualquer coisa que represente valor, além de moedas, como registros de propriedades, patentes, direitos autorais, certidões de nascimento, casamento e óbitos. Blockchain também permite reduzir fraudes, porque toda transação registrada pode ser visualizada por qualquer um. Além disso, as assinaturas e verificações digitais também dificultam as fraudes, e a integridade criptográfica de toda a transação pendente, como também o exame de múltiplos nós da arquitetura do blockchain, protege contra ameaças e utilização mal intencionadas.

Muito bem. E quem pode usar esta tecnologia? Qualquer pessoa ou empresa com acesso à Internet. Hoje ainda blockchain é mais uma curiosidade e apenas 0,025% (cerca de 20 bilhões de dólares) estão registrados em blockchain. Entretanto, diversas pesquisas apontam que seu crescimento será acelerado na próxima década, à medida que bancos, seguradoras e as empresas de tecnologia começam a aplicar blockchain no seu dia a dia, para acelerar processos, criar novos negócios e reduzir custos. Um estudo do World Economic Forum estima que em torno de 2027 cerca de 10% do PIB global já estará em blockchain. Como vivemos em uma era de exponencialidades, passar da faixa dos 10% para 50% ou mais, não levará outros 10 anos, mas talvez aconteça em apenas mais três ou quatro anos.

Os investimentos que os bancos, estão fazendo em experimentações e protótipos, são bem elevados. Um estudo "Banks will quintuple spending on blockchain by 2019" aponta que de 75 milhões de dólares em 2015, os investimentos chegarão a cerca de 400 milhões! Interessante que a maioria dos bancos estão estudando e experimentando blockchain não pelo suporte a moedas virtuais, mas no seu uso em funções operacionais como liquidação, aquele momento crucial, mas pouco charmoso e custoso, quando dinheiro e títulos são trocados entre compradores e vendedores. Reduzindo seu custo operacional e se tornando mais ágeis os bancos podem enfrentar com mais força o avanço das Fintechs. Alguns bancos pretendem até criar suas próprias moedas virtuais como o Goldman Sachs, com seu SETLCoin para facilitar estas operações. Vale a pena ler o artigo "Goldman Sachs wants to create its own version of bitcoin".

Por que os bancos estão preocupados? O seu papel de intermediário aumenta o custo das transações, pois cobram um preço pelos serviços oferecidos, como nas transferências internacionais. Muitas vezes essa transferência, para chegar as pessoas em outros países com redes bancárias deficientes, leva muito tempo. Além disso, pelos altos custos dos serviços bancários, parcela significativa da população no planeta está fora deste contexto. Estima-se que 2,5 bilhões de pessoas não tem acesso a bancos. No Brasil cerca de 40% da população não tem conta bancária. A desintermediação reduz estes custos e permite acesso a transferências de dinheiro sem passar pelos bancos. Entendendo a ameaça à sua frente, os bancos estão buscando reduzir seus custos e para isso, uma vez que será muito difícil ou impossível bloquear o uso de blockchain, é melhor e mais inteligente, usá-lo a seu favor. 

Indo além dos bancos. Com a possibilidade de conexão global peer-to-peer confiável, muito do valor de inúmeras corporações atuais, que se valem da confiança e reputação de sua marca, tende a perder relevância. A desintermediação vai se acelerar. Tornará inútil cartórios e entidades como o Ecad. Plataformas de agregação entre interessados em usar um serviço como o Uber, que conecta de um lado pessoas que querem transporte e do outro, pessoas que podem transportar, perde muito de seu valor. Sim, uma disrupção ao Uber poderá ser o blockchain!

Vamos mais longe. Com bilhões de coisas ou objetos inteligentes e conectados, gerando e compartilhando dados, por que eles não podem fazer por si as suas próprias transações financeiras? Então, do que hoje chamamos IoT (internet of Things) ou IoE (Internet of Everything) saltaremos para a LoE (Ledger of Everything). 

Uma experiência interessante para conhecer o blockchain é usar o site "Proof of Existence" onde você pode fazer upload de um documento e ter sua assinatura registrada, para sempre, na rede blockchain do Bitcoin. O que o site diz "Your document´s existence is permanently validated by the blockchain even if this site is compromised or down, so you don´t depend or need to trust any central authority. All previous data timestamping solutions lack this freedom". Claro, é apenas uma demonstração do potencial do blockchain, mas permite pensarmos livremente em inúmeras outras aplicações.

Mas, tudo tem um outro lado. Como blockchain é open source, temos diversas variantes, baseadas em diferentes tecnologias. Uma iniciativa que, acredito, possa se firmar como padrão é a Hyperledger, que conta com apoio de diversas empresas, tanto de tecnologia como financeiras. Os membros fundadores da iniciativa incluem ABN AMRO, Accenture, ANZ Bank, Blockchain, BNY Mellon, Calastone, Cisco, CLS, CME Group, ConsenSys, Credits, The Depository Trust & Clearing Corporation (DTCC), Deutsche Börse Group, Digital Asset Holdings, Fujitsu Limited, Guardtime, Hitachi, IBM, Intel, IntellectEU, J.P. Morgan, NEC, NTT DATA, R3, Red Hat, State Street, SWIFT, Symbiont, VMware e Wells Fargo. O Hyperledger é um projeto que tenta unificar todas as abordagens de código aberto do blockchain que existem atualmente. É absolutamente necessário para evitar custosas adaptações e interfaces que inviabilizariam ao uso da tecnologia. Outro desafio, como sempre aliás, quando se defronta com inovações, são as questões regulatórias. Entidades certificadoras usarão toda sua influência política para atrasar, mas não vão conseguir impedir seu uso.

Será inevitável que blockchain se tornará uma tecnologia de uso disseminado. As primeiras experiências apontam para potencial bem amplo de novos negócios, bem como otimização de processos atuais.  Portanto, nada mais sensato que estudar e compreender o seu conceito e começar a pensar em novas aplicações e negócios. Vale a pena dar uma olhada neste pequeno filme (pouco mais de dois minutos) produzido pelo World Economic Forum sobre blockchain. Também recomendo a leitura do livro "Blockchain Revolution: How the Technology Behind Bitcoin is Changing Money, Business, and the World" de Don Tapscott, que foi autor do excelente Wikinomics.

O trem do blockchain já vem chegando na estação. Melhor ter a mala na mão
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